Fibras alimentares e seus benefícios à saúde

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Devido ao seu desempenho na fisiologia dos processos vitais as fibras – parte do vegetal que resiste à digestão e à absorção intestinal com fermentação no intestino grosso – foram denominadas alimentos funcionais.Por definição, os alimentos denominados funcionais são aqueles que promovem benefícios à saúde, prevenção de doenças, e o bem-estar das pessoas.

Existem ainda substâncias fisiologicamente semelhantes às fibras, também com propriedades benéficas à saúde, como a inulina – encontrada na raiz da chicória,tubérculos de alcachofra e produzida industrialmente a partir da sacarose; os frutooligossacarídeos (FOS) – obtidos da hidrólise da inulina e produzidos industrialmente, e os amidos resistentes – contidos na biomassa da banana verde.  Os FOS são açúcares não convencionais, não metabolizados pelo organismo humano e não calóricos. São considerados prebióticos uma vez que promovem seletivamente o crescimento de bacilos Acidophillus e Bifidus promovendo a proliferação dessas bactérias benéficas no trato gastrointestinal. Essa característica faz com que os FOS promovam uma série de benefícios à saúde, desde a redução de colesterol sérico até o auxílio na prevenção de alguns tipos de câncer.

Com base na sua solubilidade, as fibras podem ser classificadas em solúveis e insolúveis. As fibras solúveis incluem as pectinas, que encontramos na cevada, nos legumes, nas frutas cítricas e na casca de maça; as hemiceluloses – do farelo de trigo, soja e centeio; as gomas encontradas na aveia; e as mucilagens, encontradas nas frutas, verduras, farelo de aveia, cevada e leguminosas.Entre as fibras insolúveis estão a celulose, algumas hemiceluloses e a lignina, que é encontrada na linhaça e é eficaz no manejo da constipação intestinal.

A quantidade de fibras alimentares consumidas diariamente por um adulto deve ser aproximadamente vinte e cinco gramas, que podem ser atingidas a partir da ingestão de quatrocentos gramas de frutas e vegetais, ou incluindo no plano alimentar, sem a necessidade cálculos elaborados, uma fatia de mamão, uma laranja ou maça, uma fatia de pão de centeio, uma colher de sopa de aveia em flocos, duas colheres de arroz integral, uma concha de feijão e duas colheres de legumes como vagem e beterraba.

Quando quantidade de fibras ingerida na forma de alimento não é satisfatória, a alternativa é a utilização de suplementos disponíveis no mercado na forma de pó diluído em diversos alimentos, a gosto do paciente.

O EFEITO DAS FIBRAS

No trato gastrointestinal

A presença de fibras na dieta modifica a microbiota intestinal e protege os colonócitos. Esses benefícios provêm da formação do bolo fecal, do aumento do trânsito intestinal, do efeito laxativo das fibras e principalmente pela formação de ácidos graxos de cadeia curta (AGCC), produtos da fermentação das fibras que são removidos do lúmen intestinal por difusão e facilitam a absorção de sódio e potássio. Os AGCC – acetato, butirato e propionato – exercem papel fundamental na fisiologia normal do cólon, onde constituem a principal fonte de energia para o enterócito, estimulam a proliferação celular do epitélio e o fluxo sangüíneo visceral e aumentam a absorção de água e sódio da luz intestinal. Também modulam o pH dos colonócitos, prevenindo o crescimento de bactérias patogênicas como a salmonela. Além disso, regulam expressão, diferenciação e proliferação genéticas de células epiteliais, formando uma barreira que serve de ferramenta para a prevenção de alergias e infecções.

Acredita-se que a fermentação dos amidos resistentes, substâncias semelhantes as fibras, elevam a concentração de butirato e proprionato no cólon, o que seria uma possibilidade de uso dos amidos no tratamento de colite ulcerativa e neoplasia de cólon, visto que os ácidos produzidos são evidentes protetores do epitélio intestinal.

As fibras regulam o trânsito intestinal em pacientes em terapia nutrológica enteral e aqueles pacientes que tem alterações no hábito intestinal, sendo úteis tanto na diarréia quanto na constipação. A farinha da casca do maracujá (Passiflora edulis flavicarpa), cujo teor de fibra alimentar é em torno de 66%, é rica em pectina, fibra que têm a capacidade de reter água formando géis viscosos que retardam o esvaziamento gástrico e o trânsito intestinal. As fibras e as substâncias com efeito probiótico excluem as bactérias patogênicas por meio da competição por sítios de ligação na mucosa do intestino impedindo sua adesão.

Na prevenção da constipação, as fibras atuam captando água e aumentando o volume das fezes. Uma maior quantidade de massa fecal distende as paredes intestinais e estimula a progressão do conteúdo de maneira reflexa, diminuindo a força de contração na propulsão das fezes. Facilitando o hábito intestinal, há menor risco de diverticulose. No caso da doença já estabelecida, as fibras podem melhorar sintomas como flatulência e cólicas.

Estudos de meta-análise levantam a hipótese de que a ingestão de fibra alimentar pode diminuir também o risco de colite ulcerativa e doença de Crohn.

 Importante também relatar que diretrizes da ESPEN (Sociedade Européia de Nutrição Clínica e Metabolismo) estabelecem Grau A de recomendação para uso de fibras na regularização da flora intestinal dos idosos.

Nas neoplasias

Os ácidos graxos de cadeia curta, além de nutrirem a mucosa, apresentam atividade anti carcinogênica.Ao facilitar o trânsito intestinal estão diminuindo o tempo de contato de substâncias carcinogênicas com a mucosa intestinal, além de aumentar o status antioxidante.

A associação entre a ingestão de fibra alimentar e o risco de câncer tem sido investigada por muitos estudos. Em uma meta-análise mostrou-se que a ingestão de fibra dietética está associada inversamente com o risco de câncer gástrico.Outro estudo, sugere que indivíduos que consomem mais fibras têm menor risco de adenoma colorretal e câncer de cólon distal.

Estudos também indicaram as fibras como fator protetor para neoplasia de mama. A viscosidade, uma propriedade fisiológica da fibra solúvel, poderia estar impedindo a reabsorção de estrógeno.

No perfil glicêmico

Dentre os mecanismos de ação das fibras relacionados à prevenção e ao tratamento do DM incluem o atraso do esvaziamento gástrico e do trânsito intestinal. Este efeito fisiológico pode impedir o aumento da glicose pós-prandial e diminuir a hemoglobina glicosilada.

A adição de uma fibra alimentar na dieta melhora a tolerância de glicose em pacientes diabéticos tratados ou não com insulina.Em pacientes hígidos, porém sedentários, a ingestão de fibras na forma de aveia e farinha da casca do maracujá também reduzem as concentrações de glicose no sangue.

Um estudo randomizado, controlado, duplo cego de três dias, conduzido com 60 adultos portadores de DM tipo 2 usando hipoglicemiante oral, avaliou o efeito pós prandial de uma barra de cereal enriquecida com fibras e de uma barra controle com zero ou pouca fibra. Os resultados demonstraram que os indivíduos que consumiram a barra enriquecida com fibras apresentaram menor resposta glicêmica e insulínica se comparados àqueles que consumiram as barras com baixo teor de fibras.

Estudos que avaliaram o pico de glicose após refeições compostas de carboidratos demonstraram que aqueles indivíduos que ingeriram fibras tiveram glicemias menores após a refeição.

Após a leitura dos estudos dá para concluir que a ingesta de fibras deve ser considerada como uma ferramenta auxiliar no tratamento de pacientes com diabetes. A explicação vinda da fisiologia é que as fibras, ao produzirem os ácidos graxos de cadeia curta, estimulam o glucagon like peptide 1 (GLP-1), hormônio encontrado na mucosa do íleo distal e no intestino grosso que é considerado um potente agente anti diabetes, pois estimula a secreção de insulina, inibe a do glucagon e retarda o esvaziamento gástrico, o que reduz os níveis glicêmicos controlando o diabetes.

No perfil lipídico

Uma consideração a respeito do mecanismo redutor da concentração sanguínea de colesterol proposto pelas fibras é o fato delas aumentarem a excreção de ácidos biliares, fazendo com que o fígado remova colesterol do sangue para a síntese de novos ácidos e sais biliares; e de que o propionato, AGCC que é produto da fermentação das fibras, inibe a síntese hepática do colesterol.

A fibra alimentar contribui para a redução dos níveis de colesterol sérico também devido a sua propriedade viscosa. A viscosidade leva à inibição da absorção intestinal de colesterol e de ácidos biliares pelo retardo da difusão no lúmen intestinal para acessar as células da mucosa e interferindo no processo de formação das micelas e de absorção lipídica.

Dados epidemiológicos também sugerem que ingestão de fibra dietética pode ajudar a diminuir a dosagem sérica de lipoproteínas de baixa densidade (LDL) e diminuir o risco de doença cardíaca coronária. A fibra dietética, em particular variedades solúveis incluindo psyllium, pectina e goma guar atua na diminuição do risco de doença cardiovascular.

O Psyllium é citado como um adjuvante para a terapia nutrológica no tratamento de pacientes com hipercolesterolemia branda a moderada em combinação com outras drogas tradicionais como as estatinas, e é uma substância bem tolerada pelos pacientes e eficaz em termos de custos.

Na obesidade

O gel que as fibras formam no intestino delgado causa saciedade e isso é importante para o controle de peso e obesidade.Elas promovem esta sensação de saciedade ao aumentar o volume também ao fazer que o alimento fique mais tempo no estômago. A inclusão das fibras diminui a ingestão calórica, a lipidemia, leptinemia e insulinemia, por diminuir a absorção de gorduras e carboidratos.

A alta ingestão de fibra alimentar também diminui o risco de obesidade, hipercolesterolemia e pressão arterial elevada durante a infância, foi o que se evidenciou um estudo com mais de cinco mil crianças.Estes dados fazem ressaltar a importância de iniciar a ingestão de fibras precocemente, tornando as crianças mais saudáveis e prevenindo doenças que podem prejudicá-las no futuro.

Nas doenças cardiovasculares

A ingestão de fibras é inversamente proporcional síndrome metabólica -conjunto de fatores que incluem aumento de cintura abdominal, pressão arterial alta, alterações de colesterol, triglicérides e glicemia, que associados vão levar ao aumento do risco de problemas cardiovasculares.

Uma meta-análise com 672.408 indivíduos, avaliou a associação entre a ingestão de fibra alimentar e risco de doença coronariana. Observou uma relação significativa entre uma maior ingestão de fibra e uma menor incidência e mortalidade da doença arterial coronariana.Outros estudos encontraram bons resultados na prevenção também de  acidente vascular cerebral.

No paciente crítico

O efeito anti inflamatório das fibras tem sido cada vez mais valorizado.Parece que a ingestão aumentada está relacionada com uma menor mortalidade em idosos, infecções e em doenças respiratórias. Maior ingestão de fibra alimentar foi consistentemente associada à melhor função pulmonar e sintomas respiratórios reduzidos em portadores de doença pulmonar obstrutiva crônica, pois os ácidos graxos de cadeia curta conferem  proteção anti inflamatória e anti alérgica no pulmão.

Também foi encontrado benefício no uso de fibras para prevenção de diarréia em pacientes de UTI, pois a falta de fibra dietética na maioria das dietas enterais, agravada pela antibioticoterapia, suprime o metabolismo normal do cólon.

Concluindo, todos os tipos de fibras, com suas características e efeitos próprios, são benéficos ao organismo. Elas promovem a saúde do intestino, órgão que tem papel essencial na homeostase de todo o sistema corporal. E considerando os benefícios que elas promovem nas mais diversas doenças que prejudicam tão fortemente a longevidade dos indivíduos, é mandatório que todos sejam orientados a consumí-las com regularidade.

 

 

Dra Karina Brunelli
CRM 54360 RQE 36182
Contato: 31-34332530 ou 31-36532400

 

 

 

 

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